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19 de mar de 2012

Parte 3 - Uma capela dentro de Miranda


Não se olhava no espelho há algum tempo. Tinha medo de enfrentar a sombra que provavelmente estaria a saltar de seus olhos. Também não sentia fome, nem sede, nem sono. Apertava um terço fortemente entre as mãos enquanto o som sequenciado indicava os batimentos cardíacos. Todo o corpo estava travado na tentativa de manter o controle. O olhar intercalava ora o leito à sua frente ora a ansiedade que por vezes questionava sua fé.

Os dias que antecederam a monstruosa dor foram marcantes. Havia uma intenção de que tudo fosse diferente, o amor mais presente, o diálogo incorporado. Aquelas mãos que se uniram para a súplica, outrora destilaram impaciência e medo, mas não podia pensar nisso naquele momento. Ser forte era tudo o que lhe restava e o nada para mudar o quadro, pois não dependia apenas dela. E se estivesse sendo castigada? Tudo seria em vão...

Cada segundo ao lado daquela cama representou uma eternidade. Nenhum movimento, nenhum suspiro. Imóvel. Na mente as melhores e piores lembranças e as promessas do porvir. Uma culpa vulcânica crescia quanto mais tentava fugir dela. Talvez não tenha dado o melhor de si, o afago mais verdadeiro, o olhar mais terno. Teria seu amor se resumido aos cuidados diários e a sublimidade do afeto se perdido no cumprimento dos dias?

Agora, ali, aquela capela era a própria sepultura. Vozes atravessavam seus sentidos e nada ficava retido. Queria encolher-se, enrolar-se, paralisar e permanecer imóvel até que o sofrimento acabasse. Nada mais ouvia senão o grito de desespero que a açoitava as entranhas. Nunca experimentara dor igual. Não existia nome para aquela perda. Vazio? Vácuo existencial? Muito mais que isso!

O fechamento do leito definitivo representava a concretização da dor dentro de Miranda. Não tinha forças para gritar o desespero que se intensificava a cada giro dos parafusos. Correu e agarrou-se à rígida armadura que a separaria para todo o sempre de seu amado filho. Todos os seus projetos de acerto e sua esperança do melhor fazer foram brutalmente interrompidos. Ela fracassou e teria que amargar essa dura realidade até o fim de sua existência. Sentia-se dissolver como castelo de areia. Arruinada, fraca, morta-viva...

Nada mais a ser feito. Acabou, tudo acabou... verdade que ecoava por dentro. Como poderia entrar naquela casa e não ouvir seus passos fortes correndo ao seu encontro, sorrindo, suado, contando histórias, seus feitos, mostrando desenhos, cantando, feliz?! Não teria entre as mãos os pezinhos, os cabelos, o corpinho. Não ouviria seus gritos, gargalhadas e choros. Não o repreenderia e seu cheiro se perderia com o desgaste de seus pertences. Como poderia viver sem tudo aquilo depois de já ter conhecido os efeitos?


Estava em contato com uma profunda e velha sensação de abandono e repentinamente uma revolta obstruiu suas feições. A escuridão da alma já não podia ser contida e um urro rompeu o silêncio bloqueador da mais visceral lamentação. Odiou o terço, o pequeno altar, rasgava-se por dentro. Por que Deus não reconhecia sua existência? Sentia-se um peão no tabuleiro de xadrez, não queria mais jogar. A exaustão em perder impunha um limite às frustrações... só não decidira como seria o fim...


Ana Virgínia Almeida Queiroz


Este conto começa em:







5 comentários:

O texto remete ao fato de que, por mais preparados que estejamos (independente da forma de preparo), a dor da perda parece sempre maior do que qualquer outra dor "emotiva". E por parecer maior do que qualquer outra, parece também que as mães nessa hora sofrem mais do que todos os outros envolvidos. Talvez porque o grau de convivência de um filho (seja menino ou menina) com uma mãe seja mais íntimo: a mãe gerou por 9 meses, depois cuidou e amamentou com todo o zelo possível... Então, no inconsciente dela, ela se dá ao direito de "externar" todo esse sentimento no momento da perda através da dor, por isso ela (a dor) nos parece maior para com a mãe, e não há nada que a console (a mãe). Nesse momento começam os pensamentos distorcidos dela: "Será que não fiz tudo que podia?", "Por que Deus está me castigando dessa forma?", "Meu filho querido, por que você está me deixando?". Mas, com o passar do tempo esses pensamentos cessam e a dor da perda se transforma em dor da ausência; é o inconsciente se utilizando da segunda estrofe da música "Oração ao tempo", de Caetano Veloso: Compositor de destinos/ Tambor de todos os ritmos/ Tempo tempo tempo tempo / Entro num acordo contigo/ Tempo tempo tempo tempo... , e a vida dela passa a fluir melhor, pelo menos em teoria.

Nossa. Impactante!! Senti a dor da perda aqui lendo esse texto!!!
Parabéns!!

Nossa que dor dessa mãe? Uma dor tão intensa que não houve fé que a ajudasse! Deus, acalente os corações das mãezinhas! Nessa situação elas não sabem o que fazem ou o que dizem.
Esse texto é tão intenso que merece a continuação!

Esse texto tem seu início nos contos "Pra bem longe do fim..." e "Uma mãe para quase todos". Em cada conto existe um pedaço da história dos personagens que irão se encontrando a cada semana, em novos contos. Todos inseridos em dinâmicas de vida que norteiam a forma como se relacionam consigo mesmos e com os outros. E o que não é a vida senão um conjunto de vivências felizes, mas também de dor, perdas e aprendizados? Obrigada pelos comentários!

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