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17 de mai de 2012

Parte 10 - O encontro com a dor


Guardava para si uma sensação que teimava em sufocá-lo cada vez que olhava para Miranda. Não se alimentava, pois uma pressão do trato digestivo travava o espaço compreendido entre a garganta e o estômago, provocando dor quando tentava comer.

Sentia-se perdido e profundamente perturbado com os toques que anunciavam as mensagens e ligações no celular. A mulher virara um tormento, e as sensações de plenitude carnal perderam espaço para uma ansiedade descomunal. Não suportava o perfume, a risada, a voz ou qualquer outra coisa que a lembrasse. Sofria de um imenso asco, somado a um sentimento de culpa, por ter se misturado com aquela criatura.

Alguns encontros, a saciação de sua necessidade em confirmar-se homem, e um profundo vazio. Lembrou-se do filho e chorou como no dia do sepultamento. Sobre a cama encolhia-se, agarrado ao travesseiro, vestindo em uma bermuda velha, desprotegido o peito. Da certeza sobre sua imponência e virilidade, sobrara um nada, um sopro rápido e seco afundado no velho colchão, recipiente dos mais devastadores sentimentos daquele arremedo de família.

Miranda, que há muito vagava entorpecida pela casa, capacitava-se para ensaiar pequenas pausas ao pé da cama, na tentativa de entender o encolhimento de Fred e, paulatinamente, permitir que o instinto materno fosse tomando conta da imensa e profunda superfície possuída pelo luto de outrora.

A cada tentativa de aproximação, mais Fred se escondia, forçando a companheira a criar estratégias de aproximação das bordas do imenso abismo que se abrira entre eles. O cônjuge irritava-se, implorando por momentos de paz e solidão, tentando promover o afastamento da esposa que, a qualquer tempo, poderia descobrir a escolha feita por ele para adiar o contato com a dor da perda filial.

Miranda sentia o estômago revirar, e um pressentimento de que dias muito duros ainda estavam por vir lhe tiravam o sono. O sofrimento que a abatera por meses aquietara-se e nova nuvem escura se formava em seu semblante. Angustiava-se com a inexistência de pausa. Estava cansada, mas ainda tinha forças.


Ana Virgínia Almeida Queiroz

Acompanhe o conto na íntegra:

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