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7 de mai de 2012

Parte 9 - A teia

Ele poderia, desesperadamente, realizar tudo o que lhe era mandado, mas nunca seria capaz de elaborar planos e promover sofrimentos com tanta perfeição. Sentia por Jairo um misto de admiração e inveja e, inúmeras vezes, o desejo de vê-lo morto não era suficiente para executá-lo. Ainda era cedo; precisava enfronhar-se nas teias mentais de seu guia e sacá-lo num golpe de mestre, fatal.




Humilhado, nunca obtinha reconhecimento pelos seus feitos. Pedro era a sombra que punha em prática toda a maldade de seu mandante. Aliciavam mulheres, fraudavam notas fiscais, sonegavam impostos, tudo arquitetado sob o pálio da mesma precisão com a qual fora moldada a beleza de Jairo.

Nada falharia se as etapas fossem minuciosamente observadas, pois era o pensante cuidadoso, perspicaz e invencível. Pedro rasgava-se por dentro, mas mantinha-se ali, vivendo de migalhas, trocos e expectativas. Projetava em Elisa todo o seu horror e, com ela, era capaz de ser o melhor vil, o pior marido, bastando Jairo aparecer e dar a impressão à irmã de que estava ali para protegê-la, jogando por terra todo o bem-estar do escravo. Apenas o preferido de Dona Cecília tinha o direito de massacrar a débil vítima, não admitindo que a incompetência de outro se sobrepusesse à sua força e ao seu preparo mentais.

Elisa era um brinquedo nas mãos da mãe, do irmão e do marido. Jairo apreciava a fragilidade da irmã, e de tempos em tempos vinha sugar-lhe a vitalidade, a alegria. Seu cheiro pueril aguçava as mais tentadoras sensações, de tomá-la em seus braços e destruí-la em mil pedaços. No entanto, optara pela tortura por render-lhe prazer mais duradouro. Ela encaixava perfeitamente, reforçando o manancial de comportamentos desumanos do primogênito.

Era como vampiro em busca de sangue. Seus joguetes lhe rendiam as energias dos gêmeos e deliciava-se como em um farto e rico banquete. Renovadas as forças, podia seguir em frente colecionando vítimas. Vivia em busca de satisfação, e Pedro poderia lhe favorecer isso por mais tempo sem ser descoberto.

Sabia manipular as debilidades do cunhado, oferecendo pequenos flashes sobre sua importância. Pedro era tão perverso quanto Jairo, porém menos inteligente. Razão bastante para tanta inveja e vontade de liquidá-lo, mas faltava-lhe recurso, coragem. Franzino, feio e abobalhadamente cruel. O olhar raso e duro em perfeito equilíbrio com os finos lábios a sorrirem de canto. Era sua impulsividade seu maior entrave!


Ana Virgínia Almeida Queiroz


Siga a sequência para compreender este conto:



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