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30 de mai de 2012

Parte penúltima – A decisão pelo fim


E ali, naquela festa, tudo voltava com tanta força que Théo era novamente tomado pelas sensações de sufocamento e opressão, iniciadas dias antes de sua viagem. Sentado no sofá, observava o quadro familiar que sempre lhe fora sofrido, patético e hostil. Pernas separadas, mãos sobre os joelhos, tronco ereto e pescoço travado, movimentava o olhar, desconfiado, tenso, defensivo. Estava pronto para esquivar-se definitivamente.

Sua mãe, em postura real, vez ou outra lançava mão de sua acidez para ferir Elisa, e ele não entendia as razões pelas quais a irmã não reagia, não fugia, não gritava. O sentimento de impotência se agravava quando vislumbrava o futuro das sobrinhas, inseridas naquele contexto doentio e manipulado por Dona Cecília e Jairo, que se arrastaria por gerações.

Não tinha forças para mudar a dinâmica, mas sobravam-lhe para excluir-se de ambiente tão repugnante. Será que tal afastamento dependia realmente de si? Dúvida que o perseguia, tomando-lhe as certezas sobre seu poder de decisão e independência. Não seria ele também uma peça no tabuleiro? Todos esses questionamentos o deixavam confuso e profundamente angustiado.

Repudiava todas aquelas formas de “amor”, e entristecia-se quando lembrava de Miranda. Talvez com ela tenha vivido uma história verdadeira de afetos e afagos, de cumplicidade e respeito. Abandonara o melhor de si quando partiu e a deixara sozinha. Optara pela sobrevivência, que só seria possível longe da família. Não a levara consigo... por nada no mundo a submeteria às incertezas do caminho que resolvera tomar.

Um dia difícil o aguardava tão logo o sol nascente tocasse a janela do quarto. Seu estômago revirava só de imaginar seu reencontro com ela. Estava com medo, trêmulo. Não sabia como se portar. Preferiu prender-se às imagens de um reencontro feliz a torturar-se com o vai e vem dos convidados de Elisa, que já havia se encolhido em algum lugar da casa.

Jairo o olhava superior enquanto arquitetava com Pedro. As crianças brincavam inocentes. Ele, imóvel por fora e borbulhando por dentro. Dona Cecília soberba. Essa era a realidade visceral, concretizada em sua vida. Sentia náuseas!

As folhas começavam a cobrir o chão, o calor insuportável destacava a plenitude do céu azulado de poucas, mas fofas nuvens. Cenário perfeito para as fantasias infantis, não fosse a hostilidade tempestuosa daquela capela.

O ambiente fúnebre e as flores paradoxalmente entristecidas, a exalarem o odor da morte, açoitavam Théo em golpe definitivo, muito embora ele não percebesse o buraco que crescia no centro de seu peito. A saleta repleta de pessoas chorosas o perturbava, fazendo com que ele entrasse em contato com a própria dor, instalada desde seus primeiros anos de vida. Inconscientemente desejava ser aquele garoto no caixão, merecedor do consolo eterno e das lágrimas de Miranda.

Só a morte poderia salvá-lo da vida de fugas pela qual optara...

Degustara sua última refeição como quem apreciava uma dose de eficaz medicamento. O suco a escorrer pelas mãos amarelava o punho de delicada camisa branca e enchia-lhe os espaços entre as unhas. Lembrou-se da infância e uma fria lágrima rolou com dificuldade pelo rosto, misturando-se ao doce sabor do alimento. Olhar fixo frontal e lábios em movimentos repetitivos desejavam o alcance do centro daquele apetitoso, mas duro, momento de prazer.

Imagens felizes junto ao pai e a Elisa povoavam-lhe a mente, rememorando as guerras com bolas feitas de barro e tantas outras brincadeiras inocentes, que o auxiliaram a manter-se vivo e homem até ali. Mas nada disso era suficiente a partir daquele momento. Cansado e triste, desejava, sem piedade, a paz; aquela que não conseguia imaginar viver ao lado dos parentes, por não saberem ou quererem libertar-se do processo parasitário familiar.

Suspirou profundamente, olhou para o alto, apoiou-se na mesa e levantou. Lavou as mãos, seguiu estrada e nunca mais voltou, deixando para trás parte da angústia presente em cada olhar, sorriso, lágrima, abraço, e tudo o mais que a percepção é capaz de captar ao longo de uma existência.



Ana Virgínia Almeida Queiroz



Acompanhe os contos na sequência:

1 comentários:

Fantástico! adoro o seu jeito de escrever, consegue com maestria nos fazer mergulhar nas sensações do personagem. Parabéns!

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