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24 de out de 2012

O desnudar-se cafajeste

Tudo convergia para a crença de que aquele dia seria apenas mais um como todos os outros... Nada a fazia sentir o próprio corpo, quiçá as emoções. Então, tropeçou em uma pedra no caminho para casa, caindo aos pés daquele que socialmente era marginalizado. Algo aconteceu ali. Algo que estava além de preceitos, “pré-conceitos”. Encontro de sombra e luz descortina um mundo de possibilidades, onde o mais importante seria perceber-se no outro e, simplesmente, permitir-se SER.

Aquelas saboneteiras nunca estiveram tão presentes em sua imagem refletida no espelho como nos últimos meses, tampouco aquela cintura. O olhar sugeria algo sedutor e sujo. Há algum tempo lutara, em vão, contra a podridão que se revelava no seu andar, gesticular, olhar e falar. Sucumbia a uma parte obscura de si mesma que em outros momentos a assustava, era agora um pedaço o qual jamais queria ver desprender-se de si ou retrair-se. Era ela quem estava ali, em carne, osso e alma. Olhos fundos, rosto encovado, como consequência de noites insones e da expectativa quanto à revivescência de momentos insadecidos ao lado daquele que veio tirar-lhe o sossego.

Uma sensação de poder tornara-a muito mais ousada na arte da maquiagem, testando aqui e ali novas cores e traços na tentativa de encontrar máscaras que pudessem melhor decifrar o inusitado e o antigo de sua própria essência. Poderia ficar horas enamorando-se a revolver lembranças das másculas mãos a percorrerem-lhe o corpo provocando a terrível sensação de um frio que transitava pela espinha e pelo estômago e lhe favorecia o ritual egocêntrico e emocionalmente mutilante. Respirava fundo, iludindo-se relativamente ao controle sobre as aparições dele.

E chegava assim com um jeito de menino, mil justificativas, toda vez que a deixava alguns dias sem notícias. Não sabia exatamente o que acontecia em tais momentos, mas aquele olhar, quase triste e com medo de perdê-la, a exemplo do que acontecera em relacionamentos por ele descritos como traumáticos, fazia com que todo seu tormento escoasse para dentro de si mesma, impingindo-lhe a impressão de engolir um remédio amargo e necessário à retenção da vida que julgava estar fora dela.

A raiva pelo abandono e pela descosideração ia se dissolvendo e logo ela estava incorporada em um papel maternal, que em poucos minutos era substituído pela lascívia. E não tinha forças para sair do jogo. A sedução era inquietante demais, regada a horas de prazer e de terror banhadas a uma ansiedade dilacerante. Viciara-se naquele processo e, eufórica, apreciava a descoberta do próprio corpo e da mente doentia que paulatinamente ia se encaixando no compasso leviano dele. Era a entrada para finalmente experienciar tudo de que havia sido privada em favor da sacralidade feminina.

Os pensamentos trabalhavam a todo instante a serviço da sexualidade manifesta em sua forma mais comum. Não percebia o potencial que rompia as barreiras de um processo educativo repressor de suas emoções mais genuínas e embolava-se nos desarranjos emocionais que emanavam dele, fazendo com que acreditasse ser ela a louca em constante devaneio em razão dos conflitos gerados entre sua intuição e os fatos. Assumia a culpa do desalinho que lentamente ia se apoderando da relação, baixando a cabeça para as agressões manifestas no desdém, na indiferença, nas sensações de possuir pouco ou nada de importância e de que iam se apossando do espaço antes preenchido por intensa sedução.

Desejava ardentemente o calor dos dias primeiros. As palavras bonitas que elevavam sua autoestima por intermédio da luxúria, fazendo-a se sentir única e especial. Inútil! Seus dias eram resumidos na busca incessante da certeza quanto ao seu valor, cuja única forma de ser ressaltado era por intermédio dos lábios dele. E não faria mais isso por ela, mas por outras que cruzavam seu caminho compulsivo, vaidoso e perverso. E diante do manancial de emoções confusas que dançavam dando voltas em sua sanidade, cabia a ela optar por três direções: a dor vitimada, a perversão despertada ou o transmutar do lado obscuro de sua alma à parte luminosa que vagarosamente surgia da escuridão daquela experiência.


Ana Virgínia Almeida Queiroz
Psicóloga - CRP: 7250-01

Suporte bibliográfico:
  • A parte obscura de nós mesmos - Uma história dos perversos - Elisabeth Roudinesco
  • Perversão - As engrenagens da violência sexual infantojuvenil - Cassandra Pereira França (org.)
  • Quem grita perde a razão - a educação começa em cada e a violência também - Luiza Ricotta
  • O conto foi também baseado na experiência de 33 mulheres que contribuiram com relatos sobre suas experiências com homens definidos como "cafajestes".





    A Rosa
    Chico Buarque 

    Arrasa o meu projeto de vida
     Querida, estrela do meu caminho
     Espinho cravado em minha garganta
     Garganta
     A santa às vezes troca meu nome
     E some

    E some nas altas da madrugada
     Coitada, trabalha de plantonista
     Artista, é doida pela Portela
     Ói ela
     Ói ela, vestida de verde e rosa

    A Rosa garante que é sempre minha
     Quietinha, saiu pra comprar cigarro
     Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
     Que sorte
     Que sorte, voltou toda sorridente

    Demente, inventa cada carícia
     Egípcia, me encontra e me vira a cara
     Odara, gravou meu nome na blusa
     Abusa, me acusa
     Revista os bolsos da calça

    A falsa limpou a minha carteira
     Maneira, pagou a nossa despesa
     Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa
     A gueixa
     Que coisa mais amorosa
     A Rosa

    Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
     Bandida, cadê minha estrela guia
     Vadia, me esquece na noite escura
     Mas jura
     Me jura que um dia volta pra casa

    Arrasa o meu projeto de vida
     Querida, estrela do meu caminho
     Espinho cravado em minha garganta
     Garganta
     A santa às vezes me chama Alberto
     Alberto

    Decerto sonhou com alguma novela
     Penélope, espera por mim bordando
     Suando, ficou de cama com febre
     Que febre
     A lebre, como é que ela é tão fogosa
     A Rosa

    A Rosa jurou seu amor eterno
     Meu terno ficou na tinturaria
     Um dia me trouxe uma roupa justa
     Me gusta, me gusta
     Cismou de dançar um tango

    Meu rango sumiu lá da geladeira
     Caseira, seu molho é uma maravilha
     Que filha, visita a família em Sampa
     Às pampa, às pampa
     Voltou toda descascada

    A fada, acaba com a minha lira
     A gira, esgota a minha laringe
     Esfinge, devora a minha pessoa
     À toa, a boa
     Que coisa mais saborosa
     A Rosa

    Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
     Bandida, cadê minha estrela guia?
     Vadia, me esquece na noite escura
     Mas jura
     Me jura que um dia volta pra casa





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