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17 de fev de 2013

O ritual

Ainda sob estado de torpor, provocado por alguns minutos de sono reparador, sentia os olhos arderem, o corpo queimar no contato com colchão e a língua necessitar de algo que a fizesse aliviar a grossa camada nela projetada durante o repouso.

Espreguiçou-se, entrando em contato com as juntas que compunham seu trêmulo corpo, fazendo-a parar por alguns segundos, respirar profundamente e permitir que ele lhe tocasse a memória. Sentou-se na beirada da cama, apoiou o corpo nas mãos sobre o colchão e pousou os pés na fria cerâmica. Fazia calor, mas a brisa da janela lateral de seu dormitório lambia-lhe o dorso suado, da mesma forma que a estimulava a levantar.

Seguiu para a cozinha, estruturando mentalmente o ritual prazeroso de todo começo de tarde. Bebeu um copo de água fresca e em seguida, cuidadosamente, despejou a água na cafeteira, distribuindo o soluto em quantidade suficiente para produzir néctar relativamente forte, na parte superior.  Adoçou com carinho a xícara e aguardou como criança o momento em que o curioso fenômeno físico se processasse naquela caldeira. Viu o líquido de coloração escura escorrer pela minúscula fenda e feliz contemplou o sucesso da arte. Despejou o conteúdo em um recipiente transparente e seguiu com ele para seu quarto.

Já sentada na varanda, de frente para as árvores, ouvia os gritos das crianças brincando no pilotis enquanto segurava pires e xícara com a mesma suavidade com que dança uma bailarina. Contemplava a natureza que em sua beleza se apresentava em odor único – cafeinado. A fumaça aromatizada penetrava em suas narinas, sendo conduzida de forma harmônica por todo o seu organismo. Seus grandes olhos iam se fechando lentamente à medida que a xícara se aproximava de sua boca, na tentativa de sorver cada gota do café que a remetia à doce sensação de beijo invasor: lento, molhado, estonteante. E, enquanto absorvia algo das partículas possíveis do néctar, a língua também passeava pelos lábios na tentativa de capturar qualquer gota que ousasse se perder.

Sua garganta não se ressentia com a temperatura. Ao contrário, dividia o calor entre o trato digestivo e o ápice de sua fronte de forma a perceber, paulatinamente, a energia circulando em suas veias, fremitando em seu centro criativo, despertando para a ânsia de se fazer produtiva. Tudo assumia nova roupagem ao entrar em contato com aquilo que, ao se misturar com ela, compunha textos e arte dentro de si, gerando um doce estado de êxtase, alterando-lhe a consciência e permitindo que, sozinha, descobrisse a cada experiência como aquela, que se repetia diariamente, um pouco de si mesma e do que era possível realizar.

E milhares de conexões se faziam em minutos, durante aquele momento de profusão sensorial, sendo ela apta a captar, senão todas, grande parte das sensações que invadiam seu corpo. Era, sem dúvida, uma de suas paixões, vivenciada sempre da mesma forma, intensa como tudo o que se propunha fazer. Essa intensidade - que no sutil contraste entre o doce e o amargo, sacramentados em um mesmo recipiente - deixava rastros visíveis àqueles que dela comungavam sua sensibilidade, assim como os resíduos que sobravam no fundo da xícara, simbolizando o porvir.
 
 
Ana Virgínia Almeida Queiroz

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