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8 de mai de 2013

Temporada 2 - Parte 3 - Pulsão

Rústico, intenso, direto, livre e quase sensível. Trazia consigo um arsenal de vivências luminosas e sombrias que compunham um ar misterioso, desinteressado e egoísta. Sentia-se fora de contexto em diversos momentos, já em outros, totalmente inserido em um cenário seguro e familiar. A harmonia entre o que havia construído na profissão e em seu lar era apreciada e reconhecida como grandioso investimento pessoal e digno de preservação. Mas Tales precisava de muito mais do que isso. Manter-se conectado consigo mesmo em meio a tantas obrigações era um desafio desgastante.


Expandir era uma necessidade emocional constante. Viver os limites das sensações e dos sentimentos que se apresentavam diante de seus olhos e na superfície de sua pele era como o ar; vital. Seu corpo era pequeno demais e seus quase dois metros de altura não comportavam a grandiosidade de sua alma e dos seus anseios. Tentava enraizar, ser comum, mas sua natureza apresentava-se de forma impiedosa, transfigurando certezas sobre sua capacidade de cumprir de maneira padronizada aquilo que a normalidade ditava como regra de ouro.

As horas avançavam nos primeiros momentos da noite e enquanto a esposa colocava o caçula para dormir, Tales saiu para uma caminhada sob o luar. Alguns adolescentes riam e conversavam alto na calçada. Acendeu um cigarro e prosseguiu rua adentro. Quase podia sentir um estado de plenitude enquanto a noite o engolia e a brisa fresca lhe acariciava a fronte. Ávido por novas experiências e sensações, tentava contentar-se com a escassa comunhão com a natureza, retroalimentando, mesmo que superficialmente, o ânimo para prosseguir em sua jornada.

Mas a certeza de que o tempo em que aquela forma de driblar sua ânsia pela liberdade chegaria o angustiava, permitindo que a imagem de Miranda invadisse sua mente, tirando-o do marasmo, aquecendo a temperatura morna que tomara conta de seu organismo.  Encostou-se em uma árvore, olhou em volta, fechou os olhos e deu uma longa tragada. Podia perceber a pulsão correr dentro de si, inquietando-o. Pressão forte no peito, pernas travadas, olhar distante e a saliva a inundar a boca faziam com que Tales perdesse o foco, vagando para dentro e fora de si a deslizar em fantasias intensas com aquela que existia apenas para permitir-lhe extravasar, parcialmente, a energia que teimava em enlouquecê-lo.

Miranda era sua versão feminina, suavemente forte. Em poucos instantes ficava totalmente embriagado pelo odor imaginário, materializado em sua forma feminina. A imagem crescia dentro dele, fomentando sua natureza exploradora. Tales desejava desvendar os próprios sentidos ao encontrar-se com aquela mulher que o inspirava, aguçando seus instintos mais primitivos. Quando ela surgia, antagonicamente menina e mulher, o confundia, deixando-o perdido, infantilizado. Sua puerilidade maliciosa desestabilizava o controle que supunha ter sobre as próprias emoções. Não podia jogar com ela. Era muito perspicaz.

Levasse o tempo que fosse, por ego tomaria aquela mulher para si.  Sabia ser ela apenas mais uma de suas inúmeras conquistas efêmeras, descartável. Queria usá-la, fazer parte de sua vida, ideias, mas não desejava ser recíproco. Nada queria construir ao seu lado, apenas usufruir de sua energia. Saciado seu impulso e reabastecido muito mais do que em suas vivências sob o luar, regressaria para o seio de sua esposa até que nova inquietação se reiniciasse, forçando-o à caça de novas fontes de prazer.

Miranda sabia, sentia a energia de Tales e de uma certa forma apreciava, mas não tinha certeza sobre evitar deixar-se envolver  pelas necessidades dele. Sua autonomia afetiva lhe era cara demais para jogá-la ao vento a troco de nada. Infelizmente, isso não era consciente e Miranda ainda corria o risco de perder-se em suas lacunas emocionais.
Ana Virgínia de Almeida Queiroz


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