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11 de mar de 2012

Parte 2 - Mãe para quase todos

Seus dias corriam contra o relógio e precisavam de mais horas. O corpo arqueava, a cabeça pendia para frente e levemente para a direita. Olhos ressecados, e boca cerrada, corpo em mecânico movimento, alma inerte para a vida. Cecília tinha que dar conta de fazer com que tudo acontecesse com perfeição. Só não percebia que essa cobrança a deixava isolada amorosamente, e as emoções mais conhecidas eram a irritação e a inveja.

Não tinha tempo para fazer as unhas ou pintar os cabelos, e uma de suas maiores alegrias era ir às compras no supermercado. Inquietava-se com o valor dos produtos nas prateleiras e na forma como também eram organizados. Polemizava com o gerente. Perdera o senso ou talvez nunca o tivera. Possuía um ar de superioridade, embora sua aparência física se comparasse a de um cachorro de rua intimidado. Olhar duro, palavras mais ainda, davam-lhe a sensação de que estava sempre pronta para enfrentar o mundo. Matar ou morrer era o seu lema e era inconsciente.

O mundo negara-lhe um espaço! Como queria ter nascido homem! Um prestígio peniano era tudo o que necessitava para ser aceita e valorizada. Não perderia tempo cozinhando ou trocando fraldas, nem precisaria estar inteira para servir o marido quando esse chegasse do trabalho cheirando a cigarro e feliz por se sentir produtivo, reconhecido. Estava enojada! Repudiava seu cheiro de macho, seus gestos, seu tom de voz. Nada que viesse dele lhe proporcionava prazer, só asco!

As gestações lhe roubaram a vitalidade. Os seios secaram e a vagina também. Quase não se nutria, o pescoço encaixava nas “saboneteiras”, braços finos e veias à mostra nos pés e nas mãos. Suas vestimentas eram sempre pálidas tendendo para o cinza, sua bolsa sempre agarrada à frente, num balançar endurecido a caminho das obrigações. Tinha sonhos, e todos somados ao desafio de ser perfeita. Era a única razão para se manter em sobrevida.

Seu primogênito era a única ponte para a cor, para a luz. Era lindo! Sentia-se orgulhosa ao lado de garoto tão imponente. Todos elogiavam sua beleza, seu comportamento, mas nada se falava sobre seu caráter. Antes que sua exposição pudesse se tornar um pouco mais eloquente ela o trazia para dentro de casa. Não tinha amiguinhos, não brincava na rua e entrou na escola aos seis anos de idade.

Dos outros dois filhos não tinha muito o que falar, eram dispensáveis. Vieram porque assim Deus desejou, e não ela! Um casal de gêmeos para lhe tirar o sossego e atrapalhar o mais velho, mas os amava mesmo assim, cuidava, não deixava que nada faltasse. Eram bem alimentados, asseados e foram para a escola aos três anos, quando o mais velho também ingressou.

Seus dias eram assim. Automáticos, controlados, perfeitos. Tudo estava a contento. Ninguém por nada podia lhe apontar, e ela apreciava a certeza de não sentir culpa. Mas, dentro de si, um bloco de mágoas e ressentimentos se sedimentou, e aos 39 anos era uma senhora, alegre ao ir ao supermercado, realizada no prestígio do filho. Esse que lhe proporcionaria os melhores sorrisos, que nunca a abandonaria. Como era parecido com ela aquele doce menino...

Ana Virgínia Almeida Queiroz


Este conto começa em:
1. Pra bem longe do fim
E continua com:



Sobre a imagem do texto:

"O Grito (no original Skrik) é uma pintura do norueguês Edvard Munch, datada de 1893. A obra representa uma figura andrógena num momento de profunda angústia e desespero existencial. O pano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol. O Grito é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da Mona Lisa de Leonardo da Vinci". Leia mais em: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Grito_(pintura)

2 comentários:

É conflitante ler que uma mãe pode sentir tamanha preferência entre os filhos...

Em alguns casos é hipocrisia dizer que não há... como no caso de Cecília. Chocante, pois ela admite...

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