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4 de set de 2012

Espelhos

Uniram-se atraídos pela vaidade e necessidade de reencontrarem parte de si mesmos. E diante do manancial de sentimentos renderam-se como mortais aos apelos do medo. Separaram-se pela aliança entre o amor e a morte e, mesmo deuses, arriscavam a trangressão da norma que os proibia de se tornarem humanos frágeis, rasos e vazios. Mas, definitivamente, não seria essa a escolha... Aquela mesma propulsão de emoções era um marco em suas vidas e seguiriam como divindades em busca de suas individuações, guardando em si o odor da vida que manifesta em poucas horas o que se poderia fruir por toda uma existência...


Eram como faíscas os pontos luminosos que percebia saltarem dos olhos dele, remetendo-a às imagens de tormentos infantis representadas na visão perfeita daquilo que chamaríamos de inferno. Sentia a pele arrepiar, além de uma atração pela possibilidade de experimentar o mínimo de calor correr pelo seu corpo e dele esvair-se no flamejante olhar de que se fizera espelho.


Vivia de forma lúcida cada escolha que aquele cenário lhe proporcionava, permitindo-se também entever e, por vezes, esquecer a razão. Sabia-se enlouquecendo, e desejava intensamente a loucura genuína de si mesma e não aquela projetada pelo outro. Havia aprendido a se amar suficientemente de forma a reconhecer o momento de parar.
Ele também queria a pausa e não tinha coragem de dizê-la por ser ela frágil, ignorante, quase débil. Achava que seu jogo era imperceptível, quando na verdade era ela quem o deixava acreditar nisso. Sua conduta representava um meio de fomentar a vaidade dele e de proteger-se de sua ira. Ele a abandonava paulatinamente, deixando uma pseudo sensação de que era ela quem o fazia. Dessa forma, não lhe feria o orgulho e ainda restaria uma ínfima possibilidade de retê-la.

Não havia sonhos, planos ou expectativas, apenas um amor que se confundia com as incertezas da ausência física e com a vontade que queimava o centro do corpo. Sensações que poderiam destruí-los, não fosse o grau de consciência a respeito dos sinais de pavor que ambos exalavam, acionando o alarme do outro. Foram se perdendo e se encontrando em outros mundos, contextualizando novas necessidades. Olhares nostálgicos pela exploração de possibilidades plenas, deixavam um “quê” de qualquer coisa inacabada quando já era tardio o momento para o resgate daquilo que vibrava em tempos idos.
A única dor era a provocada pela dúvida quanto ao preparo para partir. Ações e reações motivadas por razões íntimas e desconhecidas traziam o infortúnio do não dito e sujeito a interpretações variantes. O risco de ser devorado apoderou-se da ânsia de se fazerem efetivamente felizes. A certeza de ser amado rompeu-se... deixando mais eloquente a sensação do ser usado e, ainda assim, se amavam. De uma forma única e talvez até eterna como uma doce lembrança dos dias que comungavam energeticamente da volúpia de se atracarem e tomarem para si o que julgavam ter sido furtado pelo outro. Eram como animais farejadores do cio, misturados e ao mesmo tempo individualizados. Como seria isso possível? Como alguém que jamais conheceu o inferno de si mesmo poderia compreender?

 Nem o desgoverno ilusoriamente mapeado de suas mentes seria capaz de entremostrar a resposta...


Ana Virgínia Almeida Queiroz

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