Pages

6 de mar de 2013

Temporada 2 - Parte 2 - Arlequim

Sentia uma energia correr pela coluna vertebral, alcançando o topo de sua cabeça. Do lado de fora da loja, admirava a imagem do Arlequim que se posicionava sensual e descontraído a tocar sua flauta transversal. Desejava como criança aquela estatueta e seus olhos fumegavam. O coração, quase a lhe romper o peito, a remetia às lembranças das brincadeiras infantis na escola. Como era lindo o Arlequim! Enamorara-se por uma estátua!
E antes que sua racionalidade, de forma cruel e adulta se manifestasse, exigindo que ela abandonasse sua festa interior, remendava mais um retalho na colorida vestimenta da imagem folclórica que paulatinamente ia tomando vida. De olhos bem abertos, via-se de mãos dadas a ele, correndo pelas ladeiras de pé de moleque, pregando peças nas pessoas que caminhavam pela rua e gargalhando muito alto. As cenas projetadas em sua tela mental eram rápidas e possuíam musicalidade frenética. A eletricidade que inicialmente corria pelos centros de seu sistema nervoso era agora senhora de todo o seu belo e voluptuoso corpo.





Quase sete anos após a descoberta da traição de Fred, Miranda era agora uma mulher cheia de vida e cores. Tateava sobre desejos que dançavam em torno de sua vitalidade, mas a certeza de que queria vivenciá-la com todas as suas nuances lhe provocavam uma ânsia infindável em permanecer descobrindo o mundo e as pessoas. Vivia um dos melhores momentos de sua vida, que se diferenciava da plenitude da maternidade ou da segurança de seu romântico casamento. Só dependia dela a manutenção daquele estado febril e trepidante que a impulsionava à criação e à execução de projetos pessoais e profissionais.

Livre e suave,  ainda sentia muitas saudades do filho. De tempos em tempos encontrava dentro de si a escuridão que lentamente cicatrizava, abrindo espaço para a luminosidade da esperança. Queria reconstituir a vida em alicerces que desta vez não se demoliriam e que permaneceriam independentes do conviver com outras pessoas. Passageiras ou duradouras em sua existência, isso pouco importava, apenas se recusava a crer serem fundamentais para sua sobrevivência. Apreciava bastar-se.

Cuidava de seu corpo com paixão. Descobrira-se e apreciava estar em sua própria companhia. Intuía não encontrar alguém que lhe compreendesse  processo tão pleno; e justo por essa razão envolvia-se facilmente com os personagens de suas fantasias mais íntimas, que se projetavam em novas amizades angariadas  em suas vivências, sem apego. Permitia-se usufruir do melhor que tinham a lhe oferecer e, com a mesma facilidade com que autorizava entrarem em sua vida, os deixava partir, marcados por  afagos na alma.

E de amizades autorizou-se  vivenciar amores de forma intensa enquanto lhe duravam as chamas, de maneira branda quando se apagavam as luzes. Sentia as pessoas, seus dilemas e suas alegrias e as tomava para si como acolhia a si mesma. Seus inúmeros castelos de outrora, implodidos por forças alheias a sua vontade, eram hoje substituídos por uma única estrutura construída cuidadosamente, tendo a afetividade como base na elaboração de seu lar interno. Preocupara-se em fazer desse, acolhedor, de modo que pudesse regressar sempre que se sentisse dolorida em razão das quedas que certamente iria experimentar em suas inúmeras aventuras emocionais. Tinha plena consciência dos riscos, mas não deixaria passar um segundo qualquer que fosse da vida, que teimava em se apresentar sem trégua, sem pausa, como a força da água que rompe a represa.

Tornava-se assim, um mistério encantador, desejável. Muitos queriam decifrá-la. Transmitia força e suavidade tão naturalmente que, para pessoas comuns, isso era instigante e ao mesmo tempo ameaçador. Invejada e cobiçada, atraía para junto de si  pessoas afetivamente disfuncionais e era feliz desse jeito. Junto a elas permitia-se vivenciar seus mais secretos devaneios, chegando cada vez mais perto de sua parte mais obscura, proibida, reprimida e, paradoxalmente, colorida como a roupagem do Arlequim que se incorporava a ela, deixando para o passado qualquer identificação com donzelas ou Colombinas.
Miranda estava viva e ninguém podia duvidar da veracidade dessa afirmativa. Em retalhos de origens e colorações diferentes, saltitante e com a música a emanar pelos poros, tinha ela a força necessária para permanecer viva e prosseguir com seu intuito de desvendar os próprios mistérios. Totalmente voltada para si, ainda não era capaz de perceber que ali, bem próximo, alguém a esperava amorosamente...
Ana Virgínia Almeida Queiroz

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Google+ Twitter Facebook Delicious Digg Favorites More